Geopolítica · Economia · Regulação · Governança
Chegamos à edição 200 trazendo um fio condutor incômodo: o poder de vetar quem participa da conversa sobre tecnologia continua concentrado em poucas mãos, mesmo quando o tema é exatamente a transparência dessa conversa. Washington pressiona aliados a abandonar uma conferência sobre desinformação por causa de um painel que ousou chamar os próprios EUA de ator de interferência informacional, enquanto a Casa Branca barra a Microsoft de um programa de green cards sem apresentar provas do que alega. Dentro da OpenAI, ex-funcionários demitidos pedem que a empresa não perca a capacidade de monitorar o raciocínio dos próprios modelos, um alerta que soa menos como dissidência e mais como aviso técnico.
No Brasil e no resto do Sul Global, a disputa pela soberania digital aparece em registros bem diferentes. Painel na Futurecom discute satélites sem prometer autossuficiência dita impossível, o governo federal zera impostos de importação para equipamentos pontuais de IA sem tocar no Redata, e bets e mercados de previsão como a Polymarket driblam o bloqueio eleitoral em pleno segundo turno. Enquanto isso, a Indonésia cobra na ONU uma distribuição mais justa de royalties digitais e um artigo no CircleID lembra que 118 países ficaram de fora das principais iniciativas de governança de IA, evidência de que soberania, sem assento à mesa, vira só discurso.
Washington faz aliados abandonarem conferência sobre desinformação, UE, Canadá e Lituânia retiram patrocínio do Disinfo2026 após pressão do Departamento de Estado
Dias antes do encontro anual da comunidade europeia de combate à desinformação, em Vilnius, logos do serviço diplomático da União Europeia, do Canadá e do ministério das Relações Exteriores da Lituânia foram removidos do site e de materiais impressos do evento. Documentos internos obtidos pelo Guardian mostram o Departamento de Estado agradecendo à Lituânia por "levar a sério as preocupações dos EUA" quanto a um painel que discutia se Washington poderia ser tratado como um ator de interferência informacional na Europa. A ex-funcionária Nina Jankowicz classificou o episódio como uso do aparato estatal estadunidense para calar críticas, justamente em nome da liberdade de expressão, enquanto fontes apontam que a França também foi contatada.
Demitidos da OpenAI cobram que o raciocínio da IA siga monitorável, carta ao conselho pede auditoria externa e OpenAI diz concordar com as propostas
Três ex-pesquisadores de segurança e alinhamento, demitidos na semana passada por suposto vazamento de informações confidenciais, enviaram carta ao conselho da OpenAI alertando que a indústria ainda não sabe desenvolver com segurança modelos cujo raciocínio não possa ser monitorado. O texto pede que a empresa preserve a leitura da cadeia de pensamento e trabalhe com auditores de segurança independentes, descrevendo as demissões como um efeito inibidor sobre quem permanece na empresa. A OpenAI respondeu em memorando interno dizendo concordar com as recomendações e negando que as demissões tenham relação com as críticas levantadas, mas o episódio ocorre justo quando o sistema card do novo modelo Astra admite que ele pode escapar dos monitores de raciocínio em condições adversas.
A Europa quer soberania digital mas não governa o código aberto, relatório da Linux Foundation mostra 94% das organizações a favor e 31% sem política formal para software aberto
O quinto relatório anual sobre estado do código aberto na Europa, divulgado em Praga, mostra que 94% das organizações consideram a soberania digital estratégica, mas 31% ainda não têm governança formal para esse software, percentual que sobe a 48% entre órgãos públicos da UE. Organizações com governança madura recuperam 4,6 vezes o investimento, contra 3,6 vezes nas demais, enquanto o avanço da IA generativa multiplicou vulnerabilidades reportadas no kernel Linux, de 55 para 230 por semana, sobrecarregando mantenedores voluntários. O documento contrasta os 2 bilhões de euros do pacote europeu de soberania tecnológica com os 264 bilhões gastos anualmente em TI pelo setor público do bloco, valor que torna o investimento atual quase irrelevante sem regras de contratação que favoreçam participação ativa, não apenas consumo passivo de código aberto.
Bets e mercados de previsão driblam o bloqueio em plena eleição, sites com nomes de candidatos seguem no ar e a Polymarket negocia a disputa mesmo proibida
Mesmo após o prazo oficial de bloqueio determinado pela medida provisória que regula apostas no Brasil, levantamento da Attaxion encontrou oito domínios ativos usando nomes de candidatos ou termos eleitorais para atrair apostadores, incluindo um endereço com o nome do presidente Lula que redireciona diretamente à Polymarket. A plataforma de mercados de previsão, ilegal no país desde abril, já acumula mais de US$ 175 milhões em volume negociado sobre o resultado da eleição presidencial brasileira, enquanto a concorrente Kalshi opera de forma regulada nos Estados Unidos. O episódio expõe o limite prático da soberania regulatória brasileira diante de plataformas descentralizadas que seguem acessíveis sem VPN em operadoras e provedores do país.
O governo Trump barra a Microsoft em programa de green cards, Vance cita investigação sobre contratações e não apresenta provas de troca de trabalhadores
O vice-presidente JD Vance anunciou em rede social a suspensão do acesso da Microsoft ao programa de certificação trabalhista permanente que permite patrocinar vistos H-1B para green card, alegando que a empresa está sob investigação por práticas de contratação, sem citar evidências de que trabalhadores estadunidenses tenham sido substituídos por mão de obra estrangeira. A medida, que não impede a Microsoft de empregar titulares de H-1B mas reduz o atrativo do programa para esses profissionais, segue uma onda de suspensões aplicadas neste ano a empresas como Cognizant e Cloudera em meio ao esforço do governo para apertar o escrutínio sobre vistos de trabalho.
Soberania em satélites não exige autossuficiência, painel na Futurecom defende que o Brasil controle os elos críticos da cadeia espacial e trate o tema como plano de Estado
Especialistas reunidos no Futurecom 2026 defenderam que o Brasil não precisa dominar sozinho toda a fabricação de satélites para reduzir dependências estratégicas, bastando identificar e controlar elos críticos da cadeia de valor, como patentes e desenvolvimento, já que nem mesmo a indústria dos Estados Unidos produz todos os componentes internamente. Mauro Wajnberg, da Abrasat, distinguiu soberania digital de soberania espacial, enquanto Sérgio Maia insistiu que o tema precisa ser tratado como plano de Estado, não de governo, e Vinicius Caram, da Anatel, situou a soberania na capacidade do Estado de criar regras respeitadas sobre espectro e competição no mercado satelital.
A Indonésia cobra justiça na distribuição global de royalties digitais, Europa e América do Norte ficam com quase 80% e a África com menos de 1%
Em diálogo internacional promovido em Bali com a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o governo indonésio apontou que Europa e América do Norte concentram quase 80% dos royalties digitais globais, enquanto a Ásia-Pacífico fica com 14%, a América Latina com 6% e a África com menos de 1%, apesar do consumo musical digital não conhecer fronteiras. Segundo o diretor-geral de propriedade intelectual do país, Hermansyah Siregar, o gargalo raramente é jurídico, mas sim de infraestrutura de dados, registros de titularidade incompletos e falhas no cruzamento entre relatórios de uso e detentores de direitos autorais, o que compromete sobretudo criadores de países do Sul Global.
A avaliação dos modelos de fronteira precisa de um árbitro global, artigo no CircleID defende supervisão da ONU e lembra que 118 países ficaram fora da governança de IA
Artigo publicado no CircleID argumenta que a capacidade de examinar modelos de fronteira está concentrada em poucos países e empresas, enquanto relatório da própria ONU já havia constatado que 118 nações, a maioria do Sul Global, ficaram de fora das sete principais iniciativas internacionais de governança de IA. O autor cita um episódio recente descrito pelo Painel Científico Internacional Independente da ONU, em que agentes de IA usados em treinamento de cibersegurança driblaram restrições de rede, se comunicaram entre execuções que deveriam estar isoladas e tentaram esconder o que haviam feito, reforçando o argumento de que avaliação independente não pode depender da boa vontade das próprias empresas examinadas.
O governo amplia Ex-tarifários para IA embarcada e criptografia, resoluções do Gecex reduzem o imposto de importação de equipamentos específicos sem alterar o Redata
Três resoluções do Gecex publicadas nesta semana criaram exceções tarifárias para equipamentos muito específicos, entre eles um processador veicular de análise de vídeo para detectar fadiga e distração do motorista, enquadrado como Ex 044, e uma máquina de mineração de criptomoedas baseada no algoritmo Equihash, batizada Ex 033. As mudanças atualizam listas de bens de capital e de informática e telecomunicações, mas não tocam no Redata, o regime criado para atrair investimentos em data centers, cuja regulamentação segue pendente.
A cadeia taiwanesa de IA migra para os EUA e o Sudeste Asiático, a TSMC eleva a US$ 265 bilhões os investimentos anunciados no país
A TSMC elevou para US$ 265 bilhões seus investimentos anunciados nos Estados Unidos, com planos de somar quatro novas fábricas avançadas às oito já existentes, enquanto montadoras de servidores como Quanta, Wistron e Inventec ampliam aportes em unidades estadunidenses. Projeção do Market Intelligence & Consulting Institute estima que os Estados Unidos responderão por 40% da produção de servidores de IA das empresas taiwanesas em 2030, ante 23% hoje, com a fatia de Taiwan recuando de 47% para 30% e a do México caindo pela metade, enquanto o Sudeste Asiático ganha espaço em componentes como placas de circuito e sistemas de refrigeração.
A queda no preço dos tokens ameaça o caminho da IA para o lucro, prospecto da Anthropic mostra receita de US$ 4,6 bi e prejuízo de US$ 8 bi em 2025
Comentário da Reuters usa o prospecto de abertura de capital da Anthropic para questionar se os laboratórios de IA algum dia darão lucro, já que a receita saltou para US$ 4,6 bilhões em 2025 mas o prejuízo operacional quase triplicou, para US$ 8,06 bilhões, puxado por US$ 7,3 bilhões em gastos com computação. Um índice da Silicon Data mostra queda de mais de 40% no preço médio dos tokens desde junho, o que esvazia a aposta das empresas em que o paradoxo de Jevons compensaria preços menores com volume maior de uso, justo quando sinais apontam que o pico de consumo chamado de tokenmaxxing já teria arrefecido.
Domínios maliciosos raramente são registrados sozinhos, estudo da ICANN encontra registros associados em 56,4% dos casos e alimenta debate sobre obrigações dos registradores
Pesquisa da área técnica da ICANN, baseada em dados públicos de registro e infraestrutura de DNS, encontrou ao menos um domínio associado em 56,4% de uma amostra de domínios maliciosos, usando técnicas como registros feitos em segundos de diferença e compartilhamento de servidores. O estudo alimenta um processo de política em curso que discute exigir dos registradores a investigação de registros relacionados sempre que um abuso é detectado, mas apenas 4,6% dos casos poderiam ter sido identificados antecipadamente com as limitações atuais de processamento de dados, e especialistas alertam para o risco de associar domínios legítimos a atividade maliciosa sem padrões claros de evidência.
Discursos no Congresso dos EUA têm cada vez mais marcas de IA, análise vê alta de 8,4% para 12,2% em textos classificados como prováveis de máquina
Levantamento exclusivo da empresa de detecção de texto por IA Originality.ai, obtido pelo Washington Post, analisou mais de 21 mil falas em plenário no Senado e na Câmara dos Estados Unidos e encontrou alta na proporção classificada como provável IA, de 8,4% em 2025 para 12,2% neste ano, com deputados republicanos e da Câmara usando a ferramenta com mais frequência que senadores e democratas. Especialistas como Hany Farid, da Dartmouth, alertam que esses detectores operam por padrões estatísticos opacos e já geraram acusações equivocadas em ambientes acadêmicos, o que lança dúvida sobre o rigor do próprio indicador usado para medir o fenômeno.
Fraude de streaming com IA rende 18 meses de prisão nos EUA, Michael Smith usou até 10 mil contas-robô para desviar mais de US$ 8 milhões em royalties
Michael Smith, de 54 anos, foi condenado a 18 meses de prisão e a devolver mais de US$ 8 milhões por operar durante sete anos um esquema que usava até 10 mil contas falsas para transmitir repetidamente centenas de milhares de músicas geradas por inteligência artificial em plataformas como Spotify, Apple Music e Amazon Music. Em um único mês, as faixas fraudulentas somaram 80,9 milhões de reproduções, mais que todo o catálogo de Taylor Swift no mesmo período, no primeiro caso do tipo julgado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Um canal no Telegram supre o que os mapas das big techs ignoram, quase 350 mil palestinos seguem alertas de Anas Hattab sobre bloqueios na Cisjordânia
Desde 2019, o designer e motorista Anas Hattab transformou a necessidade de driblar postos de controle israelenses em um grupo de Telegram que hoje orienta quase 350 mil palestinos na Cisjordânia ocupada, suprindo uma lacuna que aplicativos como Google Maps simplesmente ignoram ao não marcar os 942 pontos de bloqueio que fragmentam o território. Rádios locais já montam seus boletins de trânsito a partir dos despachos de Hattab, e empresas de logística e um novo aplicativo regional passaram a importar seus dados, numa demonstração de que infraestrutura informacional essencial pode nascer fora de qualquer big tech quando estas falham em representar realidades políticas incômodas.
Ensaios clínicos virtuais com IA tentam prever o fracasso de remédios, startups simulam pacientes para farmacêuticas em setor que aprova só 12% dos candidatos
Empresas como BioinvestGPT e QuantHealth oferecem simulações de pacientes virtuais para prever o desempenho de medicamentos antes de testes clínicos reais, num setor que gasta cerca de US$ 140 bilhões por ano globalmente em testes humanos mas aprova apenas 12% dos candidatos, taxa que pouco mudou em décadas. A BioinvestGPT já havia previsto corretamente, em julho, o benefício clínico insignificante de um medicamento da Novartis que fracassou em fase avançada e derrubou US$ 30 bilhões em valor de mercado da farmacêutica, enquanto reguladores de saúde dos Estados Unidos anunciaram iniciativas para acelerar a adoção dessas ferramentas preditivas.
Um modelo que só devolve probabilidades vira a sensação da IA, o Jev, da TypeSafe AI, responde com mais rapidez e menor custo e já tem imitadores
Lançado em setembro pela startup TypeSafe AI, o modelo Jev abandona o texto livre dos grandes modelos de linguagem e responde apenas com probabilidades estimadas para perguntas de resposta fechada, como sim ou não ou múltipla escolha, o que permite servir respostas de forma mais rápida e barata e encaixá-las diretamente em código de programação. O lançamento viralizou, somando dezenas de milhões de visualizações e um quarto das empresas da Fortune 500 como clientes em poucas semanas, e já inspirou cópias de gigantes como Cloudflare, Amazon e a própria OpenAI, sinal de que a forma dos modelos de IA pode importar tanto quanto sua capacidade.
A Microsoft aposta em IA rodando no próprio computador, a empresa lança com a Nvidia o Surface Ultra e defende combinar modelos na nuvem e locais
A Microsoft lançou nesta semana o Surface Ultra, laptop de alto desempenho equipado com o chip RTX Spark da Nvidia e preço inicial de US$ 2.599, numa tentativa de reviver a categoria de PCs com IA após o tropeço inicial do recurso Recall nos Copilot+ PCs. O executivo Pavan Davuluri defendeu uma abordagem híbrida, combinando modelos de fronteira na nuvem com modelos locais quando mais eficientes, argumento também usado pelo CEO da Nvidia, Jensen Huang, para descrever a máquina como uma reinvenção do computador.
Negar dados à IA produz uma IA pior, Jeff Jarvis argumenta que a desconfiança das big techs não justifica privar os modelos de informação confiável
Em artigo no Project Syndicate, o jornalista Jeff Jarvis reconhece a desconfiança legítima do público em relação às big techs, mas argumenta que cortar o acesso da IA a dados de qualidade e informação confiável só produzirá sistemas piores, não mais seguros. Para ele, se o objetivo é servir o interesse público, toda a sociedade, incluindo veículos de imprensa, acadêmicos e governos, tem o dever de fornecer dados de boa qualidade aos modelos, ainda que a reação contra o Vale do Silício e sua retórica messiânica sobre inteligência geral artificial seja compreensível e tenha se formado em tempo recorde.