23 set 2026 · Edição 187
Edição 187

Floresta Digital

Geopolítica · Economia · Regulação · Governança

Editorial

No dia de ontem, a arquitetura de governança da inteligência artificial rachou publicamente em dois palcos simultâneos. Na Assembleia Geral da ONU, Donald Trump rejeitou qualquer "esquema globalista" para controlar a tecnologia e anunciou que passará a chamá-la de superinteligência, um dia depois de vinte países pedirem controle humano sobre sistemas de fronteira. No Conselho de Segurança, porém, executivos da OpenAI, da Anthropic, da DeepSeek e da Moonshot fizeram briefing conjunto, numa sessão convocada pela França que reúne pela primeira vez laboratórios rivais dos Estados Unidos e da China sob o mesmo teto multilateral. A disputa sobre quem escreve as regras, se governos, corporações ou fóruns internacionais, ganha ainda outro capítulo com o canal informal entre Bessent e He Lifeng, reduzido a uma linha telefônica que Pequim nem confirma publicamente.

O Brasil aparece como microcosmo dessas tensões. Enquanto Lula leva à ONU a defesa de regras internacionais para a IA e o país tenta exercer soberania regulatória via ECA Digital, portarias do MJSP e o Redata, chatbots seguem descumprindo proibições do TSE, um ataque hacker paralisa o Judiciário de Mato Grosso e um documento de hotel revela a presença discreta da rede de Peter Thiel em São Paulo meses antes da campanha eleitoral. A soma desses episódios sugere que a soberania digital não se constrói apenas por norma escrita, mas pela capacidade concreta de fiscalizar, proteger infraestrutura e entender quem circula nos bastidores da política tecnológica nacional.

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6 leituras essenciais
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IA·ONU·EUA

Washington fecha a porta à governança global da IA, Trump rejeita na ONU um esquema globalista, rebatiza a tecnologia de superinteligência e promete vigiá-la pelo DOJ

Em discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Donald Trump declarou que os Estados Unidos rejeitam qualquer esquema globalista para controlar a inteligência artificial. O presidente anunciou que os documentos do governo passarão a chamar a tecnologia de superinteligência, afirmou que quem vencer essa corrida vence tudo e que os EUA lideram a China com folga, prometendo encorajar o setor em vez de contê-lo, com acompanhamento direto do Departamento de Justiça. A fala chegou um dia depois de uma declaração conjunta de vinte países pedindo controle humano sobre sistemas de IA de fronteira, expondo o contraste entre a recusa estadunidense a marcos multilaterais e o apetite de outras nações por regras compartilhadas. Para o Sul Global, a fragmentação regulatória amplia o risco de exclusão dos processos decisórios ao mesmo tempo em que torna mais urgente a construção de capacidade soberana em infraestrutura de dados e modelos.

Washington PostConvergência DigitalPoliticoAxiosCapital DigitalPoliticoCircleIDBusiness Insider
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IA·Casa Branca·EUA

A Casa Branca escolhe seu czar de IA, Bessent desponta como favorito, o Congresso reclama de falta de briefing sobre a AI Force

Segundo três fontes ouvidas pela Semafor, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, é o favorito para o cargo de czar de IA prometido por Trump ao lado da recém-anunciada AI Force. Bessent já teve papel central na política tecnológica do governo e conversou nesta semana com o vice-premiê chinês He Lifeng, à margem da Assembleia Geral da ONU, sobre um mecanismo de notificação de incidentes de IA. Outros nomes cotados incluem Michael Kratsios, Scott Kupor e Sean Cairncross, mas a Casa Branca trata as informações como especulação. Enquanto isso, o Politico relata que o Congresso segue sem receber briefing oficial sobre a iniciativa, e democratas como o deputado Josh Gottheimer alertam que, se a AI Force for apenas uma manobra de relações públicas ligada a investimentos pessoais de Trump, isso configurará um problema sério, desconfiança reforçada pelo histórico de diretrizes anteriores da Casa Branca sobre IA que nunca chegaram a ter efeito prático no Legislativo.

PoliticoSemaforGizmodoSouth China Morning Post
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TSE·IA·Eleições

A regra eleitoral brasileira não alcança os chatbots, a Folha flagra assistentes de IA rankeando candidatos apesar da proibição do TSE

Levantamento da Folha de S.Paulo mostra que chatbots de inteligência artificial continuam classificando candidatos à Presidência mesmo depois de o Tribunal Superior Eleitoral proibir esse tipo de recomendação para evitar influência indevida sobre eleitores. Múltiplas plataformas, incluindo produtos de grandes empresas de tecnologia, não implementam os controles exigidos pela Justiça Eleitoral, escancarando a distância entre a norma e sua fiscalização efetiva. O episódio expõe um problema estrutural de soberania digital brasileira, sistemas desenvolvidos fora do país interferem em decisões políticas internas sem supervisão real, e reforça a necessidade de capacidade técnica e institucional própria para fazer cumprir regras sobre IA em processos democráticos sensíveis.

Folha de S.Paulo
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ONU·IA·Governança Digital

A IA chega ao Conselho de Segurança da ONU, laboratórios dos EUA e da China fazem briefing conjunto e o G20 mira padrões globais em 2027

Executivos de empresas de inteligência artificial fizeram nesta quarta-feira, 23 de setembro, briefing ao Conselho de Segurança da ONU em sessão sobre IA e segurança internacional convocada pela França. Representantes da OpenAI e da Anthropic participaram ao lado das chinesas DeepSeek e Moonshot, na primeira vez em que o órgão recebe juntos desenvolvedores de fronteira dos dois países, um dia depois de Trump rejeitar, na Assembleia Geral, qualquer governança global da tecnologia. Segundo o Quartz, Sam Altman e Dario Amodei defendem que o Conselho assuma papel central na supervisão de riscos existenciais da IA, com possível monitoramento internacional e conformidade obrigatória a padrões de segurança. Paralelamente, o G20 planeja desenvolver seus próprios padrões sob a presidência britânica em 2027, e o CIGI propõe um conselho de estabilidade dedicado ao tema. A disputa por quem define as normas globais, se corporações estadunidenses, governos ocidentais ou instituições multilaterais, é decisiva para o Sul Global, que corre o risco de ver hegemonias tecnológicas consolidadas sem espaço para marcos regulatórios alinhados a suas próprias necessidades.

ABC NewsQuartzMorningstarLinkedIn/CIGIONLINE
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IA·OpenAI·Anthropic

A IA de fronteira entra em guerra de preços, a Anthropic corta 40% no Opus 5.5, a OpenAI reduz pela metade o GPT-6 e a DeepSeek ganha espaço

A indústria de IA muda de eixo, da corrida por modelos mais poderosos para a disputa por custo. A Anthropic lançou em 22 de setembro o Claude Opus 5.5 a US$ 4 por milhão de tokens de entrada e US$ 20 por milhão de saída, cerca de 40% mais barato que a versão anterior, enquanto a OpenAI apresentou o GPT-6 Sol e o GPT-6 Luna com redução de 50% nos preços, e a xAI trouxe o Grok 4.7 com foco em custo-benefício. A pressão sobre as margens das gigantes estadunidenses abre espaço para a chinesa DeepSeek, cujo modelo V4.1 Flash escalou 172% em uso semanal no OpenRouter, desafiando a supremacia ocidental em preço e adoção. Startups como a Harvey já migram cargas de trabalho para modelos abertos mais baratos. Para o Sul Global, a queda de preços barateia o acesso a capacidades avançadas de IA, mas aprofunda a dependência de infraestrutura controlada por poucos players, no momento em que a competição entre Estados Unidos e China por mercados globais se intensifica.

AxiosCNBCAI WeeklyThe InformationThe InformationMTS Live (Substack)Bloomberg
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Peter Thiel·Brasil·Eleições

A rede de Peter Thiel passou por São Paulo antes da campanha, documento de hotel lista 15 hóspedes ligados à Thiel Capital

Um grupo de funcionários do bilionário estadunidense Peter Thiel, cofundador da Palantir e do PayPal, esteve em São Paulo entre o fim de abril e o início de maio de 2026, cerca de três meses antes da abertura oficial da campanha eleitoral brasileira. Documento interno do hotel Rosewood, obtido pela newsletter Noites Húngaras e publicado em parceria com a CTRL+Z, identifica nominalmente 15 hóspedes sob o título "Thiel Capital & Presidio One", referência à empresa que administra os investimentos pessoais de Thiel e a uma companhia registrada no mesmo endereço, em Los Angeles. Oficialmente, segundo o Valor Econômico, Thiel veio ao Brasil para encontrar a equipe da Enter, startup brasileira de IA aplicada ao setor jurídico, no fechamento de uma rodada de investimentos. Thiel apoia Trump desde 2016, financiou a trajetória de J.D. Vance e está ligado à rede conservadora Rockbridge, e a reportagem situa a viagem num momento de expansão de seus interesses na América Latina, que incluiu também encontros com Javier Milei na Argentina, embora o documento do hotel não informe a agenda do grupo nem vincule a hospedagem diretamente às eleições de 2026.

CTRL+Z
Nesta edição
01O canal de IA entre EUA e China ainda é só uma linha telefônica
02O mercado pune a investigação de Pequim sobre IA
03A soberania digital pela via fiscal cobra seu preço
04A Anthropic tenta ser dona da própria computação
05O viés político cresce junto com o tamanho dos modelos chineses
06A China aposta todas as fichas na autossuficiência em IA
07O MJSP aperta o cerco no ambiente digital
08O FBI vira alvo do ShinyHunters
09Um ataque hacker paralisa o Tribunal de Justiça do Mato Grosso
10As big techs esbarram na soberania da nuvem
11A OpenAI leva sua IA à base de trabalho de uma superapp asiática
12O agente Muse testa a escala da Meta
13A indústria de IA abre a porta a avaliadores externos
14A IA avança no Brasil sem proteção à altura
15Os pequenos provedores sustentam a conectividade brasileira
16O otimismo com a IA é maior fora dos EUA
17Lula leva à ONU a defesa do Pix e de regras para a IA
18A eficiência energética dos data centers vira norma na União Europeia
19O Reino Unido cobra verificação de idade nas plataformas adultas
Demais destaques
01IA·EUA·China

O canal de IA entre EUA e China ainda é só uma linha telefônica, a cúpula Trump-Xi chega à Casa Branca em meio a diálogo informal

Scott Bessent propôs um mecanismo de notificação de incidentes de IA em encontro no domingo com o vice-premiê chinês He Lifeng, mas, segundo quatro fontes ouvidas pelo Politico, o arranjo se resume a uma linha telefônica aberta entre os dois, que Pequim ainda não confirmou publicamente. Na CNBC, Bessent falou em uma "linha de incidentes" e disse que os países formalizaram diálogos sobre IA, com nova reunião prevista para dali a dois meses em Shenzhen. O encontro de Trump com Xi Jinping na Casa Branca acontece nesta semana, e o canal limitado entre autoridades financeiras sugere que, mesmo em meio à rivalidade tecnológica declarada, existem pontos de interesse comum na prevenção de riscos de IA.

02China·IA·DeepSeek

O mercado pune a investigação de Pequim sobre IA, ações de Zhipu, MiniMax e Alibaba caem após apuração sobre DeepSeek e Moonshot

Ações de desenvolvedoras chinesas de modelos de IA recuaram em Hong Kong depois de a The Information noticiar que a Administração do Ciberespaço da China investiga possíveis violações de segurança de dados pelas startups DeepSeek e Moonshot AI. Z.ai (Zhipu), MiniMax e Alibaba, dona dos modelos Qwen, caíram junto com o índice Hang Seng. Segundo a Bloomberg, a apuração começou depois de a Anthropic acusar as duas empresas de encaminhar dados sensíveis por meio de seus modelos Claude, e analistas temem escrutínio mais amplo de Pequim sobre todo o setor, justamente quando a China refina seu próprio marco regulatório de segurança em IA, com ênfase em testes de conformidade e monitoramento contínuo, em contraste com as abordagens ocidentais centradas em direitos individuais.

03Redata·Data Centers·Soberania Digital

A soberania digital pela via fiscal cobra seu preço, JOTA e Migalhas questionam o custo do Redata e a Telesíntese vê tensão na América Latina

Artigos de opinião no JOTA e no Migalhas discutem o Redata, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, como instrumento de política industrial para atrair infraestrutura de dados ao Brasil, mas alertam para a tensão entre renúncia fiscal e ganho real de capacidade tecnológica. A coluna do Migalhas questiona se atrair data centers com incentivos garante autonomia ou reproduz uma dinâmica em que o país hospeda a infraestrutura e fornece os dados enquanto o valor agregado fica com empresas do Norte Global, sustentando que sediar servidores não basta sem capacidade computacional e de IA para extrair valor local. Já a Telesíntese examina o dilema latino-americano entre a necessidade de escala para acompanhar a demanda de IA e o risco de perder governança sobre infraestrutura crítica historicamente dominada por gigantes dos Estados Unidos e da China.

04Anthropic·Data Centers·IA

A Anthropic tenta ser dona da própria computação, negocia até 1 GW em data centers da Stream e a Casa Branca promete blindar a conta de luz

Segundo a The Information, a Anthropic negocia alugar até 1 gigawatt de capacidade em instalações da Stream Data Centers, controlada pela Apollo Global Management, para reduzir sua dependência de provedores de nuvem como AWS e Google Cloud. Como inquilina direta, a empresa instalaria servidores e chips próprios, mantendo controle sobre hardware e custos operacionais, enquanto o Google discute oferecer garantias de crédito para parte dos projetos. A MIT Technology Review associa o movimento ao risco crescente de bolha na infraestrutura de IA, com gastos superando os retornos econômicos reais, e a Axios relata que a Casa Branca negocia proteções para impedir que consumidores dos Estados Unidos arquem com os custos energéticos da expansão, sinal de que o boom de data centers já pressiona diretamente a política doméstica de energia.

05IA·China·Viés Algorítmico

O viés político cresce junto com o tamanho dos modelos chineses, avaliação da LatticeFlow mostra o Qwen 3.7 Max mais alinhado a Pequim

Em entrevista ao Washington Post, o CEO da suíça LatticeFlow AI, Petar Tsankov, apresenta testes que comparam respostas de modelos ocidentais e chineses sem definir de antemão um padrão de neutralidade, extraindo e cruzando afirmações de cada sistema. O resultado mostra que o alinhamento a posições do governo chinês cresce à medida que os modelos escalam, o Qwen 3.7 Max aparece mais próximo de Pequim que o Qwen3 32B nas seis categorias testadas sobre política chinesa. O estudo ganha relevância porque empresas dos Estados Unidos vêm adotando modelos abertos chineses pelo custo, que responderam por 30% a 46% do uso de tokens de empresas estadunidenses no OpenRouter em 2026.

06China·Semicondutores·IA

A China aposta todas as fichas na autossuficiência em IA, o BofA vê oportunidade e risco de valuation e o FT descreve a corrida por chips

Análise do Bank of America sobre a estratégia chinesa de reduzir dependência de tecnologias ocidentais em inteligência artificial aponta perspectivas econômicas positivas para o setor local, mas também riscos estruturais ligados a semicondutores e capacidade computacional, além de valuations infladas por entusiasmo especulativo. O Financial Times descreve o esforço chinês por chips domésticos como resposta direta a sanções e restrições comerciais dos Estados Unidos, com investimentos massivos em pesquisa acadêmica e parcerias público-privadas. Publicações como a Nature e a Noema discutem essa autonomia tecnológica como parte de uma virada mais ampla de poder, na qual a fragmentação das cadeias de suprimento reposiciona a China como potência emergente e oferece ao Sul Global tanto oportunidades de diversificação de fornecedores quanto riscos de aprofundar a divisão tecnológica global.

07ECA Digital·ANPD·IA

O MJSP aperta o cerco no ambiente digital, portaria manda a ANPD investigar companheiros de IA e plataformas já removem conteúdo

O Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou três portarias para endurecer o combate à fraude digital e reforçar a proteção de vulneráveis na internet. Uma delas regulamenta, no âmbito do ECA Digital, o fluxo para que redes sociais reportem crimes contra crianças e adolescentes ao Centro Nacional de Inteligência da Polícia Federal, e outra pede que a ANPD investigue serviços de companhia baseados em IA, que a Secretaria de Direitos Digitais do ministério associa a riscos de manipulação emocional e dependência psicoafetiva entre jovens. Em paralelo, o Estadão mostra que Instagram, TikTok e Roblox já removeram funcionalidades ligadas a sexualização, jogos de azar e golpes voltados a crianças depois da regulamentação, sinal concreto de que a legislação brasileira consegue forçar mudanças em plataformas globais e serve de referência para outros países do Sul Global.

08Cibersegurança·FBI·EUA

O FBI vira alvo do ShinyHunters, o Departamento de Justiça confirma acesso a dados de funcionários e o grupo alega ter informações sobre cônjuges

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos confirmou que o grupo ShinyHunters comprometeu dados de funcionários do FBI, numa violação significativa que expõe vulnerabilidades em sistemas de proteção da maior agência de investigação doméstica do país. Segundo a 404 Media, os hackers alegam ter acesso a informações sobre todo o quadro de funcionários, incluindo cônjuges, embora os detalhes específicos do vazamento não estejam totalmente confirmados. O episódio reacende o debate sobre a fragilidade das defesas cibernéticas de instituições estadunidenses num momento de intensificação das capacidades ofensivas de grupos criminosos, muitas vezes com respaldo estatal.

09Cibersegurança·Judiciário·Brasil

Um ataque hacker paralisa o Tribunal de Justiça do Mato Grosso, com serviços judiciais interrompidos e a resiliência pública em xeque

Um ataque cibernético paralisou sistemas do Tribunal de Justiça do Mato Grosso, afetando operações judiciais e evidenciando fragilidades nas camadas de proteção digital de instituições públicas brasileiras. O incidente ilustra como infraestruturas críticas de dados sensíveis permanecem vulneráveis a ataques coordenados, reforçando a urgência de investimentos em resiliência cibernética e governança digital no setor público, num contexto em que a dependência de soluções externas de segurança segue como ponto sensível para a autonomia tecnológica do país.

10Cloud·China·Índia

As big techs esbarram na soberania da nuvem, Google e Amazon enfrentam barreiras regulatórias na China e na Índia

Segundo a Rest of World, Google e Amazon encontram obstáculos significativos para expandir seus serviços de computação em nuvem em dois dos maiores mercados digitais do mundo. Na China, restrições regulatórias impedem que empresas estrangeiras operem diretamente infraestrutura de nuvem, forçando parcerias com players locais sob controle governamental rígido; na Índia, embora o acesso seja tecnicamente possível, políticas de dados soberanos e pressão política criam barreiras práticas que favorecem concorrentes domésticos. O caso exemplifica como países do Sul Global usam regulação e incentivo a campeões nacionais para transformar infraestrutura de dados em instrumento de autonomia e poder estatal.

11OpenAI·Sudeste Asiático·IA

A OpenAI leva sua IA à base de trabalho de uma superapp asiática, programa com a Grab quer capacitar 30 mil motoristas e comerciantes

A Grab, superapp de mobilidade, entregas e serviços financeiros do Sudeste Asiático, e a OpenAI lançaram o programa GO Forward with AI, que pretende capacitar 30 mil motoristas, entregadores e comerciantes parceiros em habilidades práticas de IA ao longo de dois anos, começando em Singapura e se estendendo a Tailândia, Indonésia e Filipinas, com três meses de acesso gratuito ao ChatGPT Plus. A iniciativa amplia parceria iniciada em 2024 e mostra como a capacitação tecnológica funciona como ferramenta de influência geopolítica, oferecendo desenvolvimento de capital humano à região ao mesmo tempo em que aprofunda sua dependência de infraestrutura de IA controlada pelos Estados Unidos.

12Meta·IA·Big Techs

O agente Muse testa a escala da Meta, passa de 500 mil usuários na primeira semana e Zuckerberg aposta no futuro com óculos

A plataforma de IA generativa Muse, da Meta, ultrapassou 500 mil usuários em sua primeira semana, segundo a The Information, reforçando a capacidade da empresa de escalar rapidamente novos produtos de inteligência artificial antes que concorrentes reajam. Segundo a Business Insider, analistas do Goldman Sachs veem no lançamento uma oportunidade relevante de monetização via serviços premium e publicidade direcionada, enquanto o New York Times e o The Verge acompanham como Mark Zuckerberg conecta a aposta em agentes autônomos à visão de futuro construída em torno dos óculos inteligentes da empresa. Para o Sul Global, o crescimento acelerado de plataformas como o Muse aprofunda a dependência de ecossistemas de IA controlados por poucas corporações estadunidenses, num mercado ainda sem alternativas regionais consolidadas.

13IA·OpenAI·Regulação

A indústria de IA abre a porta a avaliadores externos, a OpenAI antecipa testes de terceiros enquanto um CEO europeu vê marketing no alarmismo

A OpenAI anunciou que passará a permitir avaliações técnicas de segurança por grupos externos durante o treinamento e a implantação de novos modelos, e não apenas depois de prontos, como resposta à pressão regulatória crescente por transparência. Em paralelo, um CEO europeu do setor de IA argumenta, segundo a Axios, que os alertas sobre riscos de sistemas descontrolados funcionam principalmente como estratégia de marketing, posição que contrasta com o rigor do AI Act europeu e expõe a tensão entre ceticismo industrial e regulação. Para o Sul Global, a abertura a avaliadores externos pode abrir espaço para que pesquisadores de países em desenvolvimento participem de padrões globais de segurança hoje definidos quase exclusivamente por atores do Norte Global.

14LGPD·IA·Privacidade

A IA avança no Brasil sem proteção à altura, 70% dos brasileiros já cogitaram entregar dados sensíveis a chatbots

Levantamento aponta que 70% dos brasileiros já consideraram compartilhar informações sensíveis com chatbots de inteligência artificial, revelando um gap entre a velocidade de adoção tecnológica e a literacia digital sobre privacidade no país. A insuficiência de regulação específica e de educação digital amplifica riscos, mesmo com a LGPD em vigor, expondo cidadãos à extração massiva de dados por corporações estrangeiras sem supervisão efetiva. A BBC News Brasil complementa o quadro mostrando como a IA já transforma o mercado de trabalho no país, evidenciando que o Brasil corre o risco de aprofundar sua dependência tecnológica caso não desenvolva capacidades próprias de governança e infraestrutura de dados.

15Conectividade·Provedores·Brasil

Os pequenos provedores sustentam a conectividade brasileira, levam internet a 76% dos municípios longe dos grandes centros

Pequenos provedores de internet respondem por levar conectividade a 76% dos municípios brasileiros, atuando onde grandes operadoras não investem por falta de atratividade econômica. Usando soluções como rádio, fibra óptica local e banda larga móvel, essas empresas reduzem a dependência de oligopólios de telecomunicações e fortalecem capacidades locais de infraestrutura crítica, modelo descentralizado que também protege contra vulnerabilidades concentradas em poucos operadores nacionais, tema relevante para a segurança cibernética e a autonomia tecnológica do país.

16IA·Sul Global·Pesquisa

O otimismo com a IA é maior fora dos EUA, pesquisa Gallup mede expectativas globais e o Sul Global aparece mais animado

Pesquisa global da Gallup mostra que o otimismo com oportunidades econômicas digitais permanece disseminado em várias regiões do mundo, com diferenças marcantes entre países que confiam nos benefícios da IA e outros mais céticos sobre acesso e mobilidade econômica. A Semafor relata aumento geral na positividade de adultos em relação à tecnologia, com variações relevantes entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, enquanto um executivo do Google observa que o Sul Global tende a se mostrar mais animado com a IA do que os Estados Unidos, dado que pode facilitar ou dificultar políticas regulatórias nacionais e influenciar negociações internacionais sobre padrões da tecnologia.

17Lula·ONU·Big Techs

Lula leva à ONU a defesa do Pix e de regras para a IA, com críticas às big techs repercutidas por veículos de telecomunicações

O presidente Lula criticou o poder das big techs em discurso na Assembleia Geral da ONU, cobrando uma governança internacional para a inteligência artificial que não seja ditada unilateralmente pelas potências tecnológicas. O Brasil reafirmou sua posição de que plataformas digitais sediadas nos Estados Unidos e na China devem se submeter a regras que respeitem a soberania de outros países, ao mesmo tempo em que Lula defendeu o Pix como exemplo de infraestrutura digital soberana bem-sucedida. A fala busca articular consensos entre países do Sul Global preocupados com a concentração de poder tecnológico e a ausência de proteção regulatória equivalente à dos mercados desenvolvidos.

18União Europeia·Data Centers·Sustentabilidade

A eficiência energética dos data centers vira norma na União Europeia, com selo obrigatório de sustentabilidade e aposta em CO2 supercrítico

A União Europeia implementou um esquema de classificação para medir e regular o consumo de energia dos data centers, com métricas padronizadas de eficiência que se integram à estratégia do Digital Compass de autonomia tecnológica europeia. A medida obriga operadores a divulgar consumo de energia, uso de água e origem renovável de suas fontes, pressionando também empresas internacionais que atuam no continente. A Wired destaca ainda uma startup que desenvolve tecnologia de resfriamento com dióxido de carbono supercrítico, e o conjunto de iniciativas posiciona a UE como referência em regulação de infraestrutura crítica de IA, alternativa a um modelo desregulado que predomina em outras regiões, inclusive no Sul Global.

19Ofcom·Reino Unido·Proteção Infantil

O Reino Unido cobra verificação de idade nas plataformas adultas, a Ofcom abre investigação sobre controles etários do Pornhub

O regulador britânico Ofcom abriu investigação formal contra o Pornhub para apurar se os sistemas de verificação de idade da plataforma cumprem as exigências do Online Safety Act, legislação que responsabiliza serviços digitais por conteúdo prejudicial a menores. O caso reforça o endurecimento regulatório sobre plataformas digitais na proteção de crianças e adolescentes, e cria um precedente que pode influenciar reguladores em outros países, inclusive no Sul Global, na definição de modelos de compliance para plataformas internacionais.

Leituras adicionais
01
Lula cobra regras para IA e exige transferência de tecnologia no acesso a minerais críticos do Brasil
Capital Digital
02
Lula diz na ONU que não cederá a pressão para privatizar o Pix
Poder360
03
O século XXI segundo Lula, por Reynaldo Aragon
Jornal GGN
04
Só um terço das organizações nórdicas sente controle sobre seus dados críticos
Cision
05
Soberania digital importa num mundo fragmentado, texto da IBM
IBM
06
Para onde vai de fato o orçamento de IA
Zip
07
Post viral de engenheiro de software expõe o lado desgastante da programação com IA
Business Insider
08
É uma ilusão de aprendizado, educadores dizem que a IA prejudica estudantes
Washington Post
09
Andreessen Horowitz lança escola de IA como alternativa à faculdade
Bloomberg
10
Modelos de IA feitos a partir de cérebros de rato estão perto de virar realidade
Wired
11
A IA está mudando a forma de medir a dor
MIT Technology Review
12
Caro presidente Trump, eis um acordo, por Gary Marcus
Gary Marcus Substack
13
Bessent fala sobre o custo dos títulos do Tesouro na CNBC
CNBC
14
Urgente, incendiário vai escrever o código de incêndio, por Gary Marcus
Gary Marcus Substack
15
Pluralistic, texto de Cory Doctorow de 22/9
Medium (Pluralistic by Cory Doctorow)
16
Segurança nacional, tecnologia, soberania
Japan Times
17
IA, a ONU, Xi e Trump
The Information
18
CGI.br, guia de eleições
TeleTime
19
Relatório de transparência da Meta
MobileTime
20
Juízo final em Nova York
Politico
21
Cavalos com grampos de bateria corretos tirando uma selfie
Medium
22
Texto da 404 Media, conteúdo não acessado
404 Media
23
Aplicativo chinês Xiaohongshu é removido da App Store da Apple nos EUA
BBC News
24
Empresas de IA enfrentam ações judiciais por dados de treinamento
BBC