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Nesta segunda-feira, o fio que costura a pauta é a distância entre a velocidade da indústria de IA e a lentidão das instituições chamadas a conter seus efeitos. Em Genebra, EUA e Rússia esvaziaram, em uma sessão de câmeras desligadas, justamente as salvaguardas que orientavam revisar humanamente alvos escolhidos por algoritmos militares — episódio que espelha, em escala diplomática, o vácuo jurídico que já deixa agentes de IA vasculharem sites federais e bancos de dados da ONU sem que ninguém saiba exatamente quem responde por isso. Enquanto isso, a Casa Branca trata magnatas da IA como convidados de honra dois dias depois de um tribunal validar o veto do Pentágono a um deles, e a China observa o catastrofismo estadunidense com ceticismo aberto, entre suspeita de manobra comercial e desconfiança de que Washington fale de risco existencial só quando lhe convém.
Do outro lado do tabuleiro, a corrida por infraestrutura segue redesenhando território, crédito e cadeias de suprimento sem esperar por regra nenhuma. Os Estados Unidos armam uma rede de minerais críticos que passa por Goiás, Congo e Argentina para driblar a China, enquanto florestas e fazendas nos EUA e aldeias na Índia cedem lugar a data centers que consomem energia, água e paciência política. Na Europa, a discussão sobre simplificar regras de dados esbarra no risco de entregar ainda mais poder aos mesmos monopólios que a regulação tentava conter — um lembrete de que toda promessa de desburocratização carrega, embutida, uma pergunta sobre quem sai ganhando.
Genebra esvazia o controle humano sobre armas autônomas, EUA e Rússia retiram do rascunho a revisão humana de alvos e a cláusula ética, relata o Washington Post
O Washington Post relata que, no último dia das negociações da Convenção sobre Certas Armas Convencionais, em Genebra, diplomatas dos EUA e da Rússia passaram cerca de 15 horas retirando do rascunho do primeiro acordo sobre armas autônomas letais a exigência de previsibilidade dos sistemas, a cláusula sobre considerações éticas e a provisão que mandava revisar humanamente os alvos gerados por IA antes de um ataque. A sessão foi fechada, sem câmeras da ONU e sem observadores da sociedade civil, e as duas delegações levaram equipes jurídicas quase duas vezes maiores que as dos demais países. Segundo a Human Rights Watch, o texto fechado na madrugada de 5 de setembro ainda teve o escopo reduzido do direito internacional como um todo ao direito humanitário, e a diretora da coalizão Stop Killer Robots acusa Washington e Moscou de rejeitar regras vinculantes e usar capital político para pressionar os demais Estados num processo que exige consenso. Nos EUA, um memorando de Trump mandou o Pentágono atualizar em 90 dias a diretiva que exige julgamento humano antes do disparo dessas armas, revisão que ainda não foi publicada, e a próxima decisão sobre o texto de Genebra cabe à Sétima Conferência de Revisão da CCW, em novembro.
A Casa Branca abre a porta que o Pentágono mantém fechada, Trump janta com Amodei dois dias após o tribunal confirmar o veto militar à Anthropic e prepara a cúpula de terça
Trump recebeu Dario Amodei, CEO da Anthropic, para um jantar privado na Casa Branca no domingo, dois dias depois de o Tribunal de Apelações do Circuito de D.C. manter, por 2 votos a 1, a designação da empresa pelo Pentágono como risco à cadeia de suprimentos, feita em março depois que ela se recusou a retirar do Claude salvaguardas contra armas autônomas e vigilância doméstica em massa. A maioria do tribunal entendeu que a lei aplicada não exige prova de intenção maliciosa, o secretário de Defesa Pete Hegseth comemorou a decisão e a Anthropic ainda pode recorrer. O convite pessoal veio depois de Amodei faltar ao jantar de Estado para Xi Jinping, numa relação marcada pelo desacordo de fundo entre a defesa de supervisão independente feita pelo executivo e a rejeição de Trump a qualquer regime regulatório em nome da disputa com a China. Na terça, Trump recebe o presidente da Câmara e CEOs de laboratórios de fronteira, incluindo a Meta, e a Axios nota que, depois de dias de incidentes com agentes, os executivos devem sair mais festejados que cobrados, além do plano de Trump de rebatizar toda IA de super intelligence, termo que no setor designa sistemas que superam a cognição humana.
Pequim não compra o alarme de Washington sobre a IA, alertas de catástrofe soam ocidentais ou como manobra comercial e a postura de Amodei alimenta a desconfiança, relata o NYT
Reportagem do New York Times mostra que, na China, os alertas de catástrofe vindos dos laboratórios dos EUA soam remotos e ocidentais, ou como manobra para impedir que empresas chinesas alcancem as rivais, num país que já policiou a internet e, na pandemia, rastreou centenas de milhões de pessoas. Ainda assim, Pequim reagiu ao Mythos, da Anthropic, com diretrizes sobre agentes fora de controle, um projeto de lei de crimes cibernéticos e uma atualização do marco de governança de segurança da IA que incorpora o temor do autoaperfeiçoamento recursivo, embora ainda não exija testes de risco catastrófico e apenas metade das dez maiores empresas chinesas tenha publicado avaliações de segurança recentes. Sarah Sun, da Open Community for AI Safety China, diz que a postura linha-dura de Amodei, que defende ampliar restrições de chips ao país, atrapalha quem tenta discutir segurança por lá, e um pesquisador da Universidade Fudan resume o impasse, cada lado só acredita que o outro desacelera se ele próprio já tiver desacelerado primeiro.
Washington monta uma cadeia de minerais críticos sem a China, fecha acordos com Goiás, Argentina e Congo e cria a Pax Silica com aliados, relata o Wall Street Journal
O Wall Street Journal mostra que o governo Trump montou um esforço multibilionário, com cinco departamentos federais, dois bancos públicos e o Conselho de Segurança Nacional, para criar uma cadeia de minerais críticos livre da China, acelerado depois que Pequim impôs controles de exportação de terras raras em abril de 2025. Segundo o CSIS, o investimento público em terras raras e ímãs chegou a US$ 7,6 bilhões nos últimos 18 meses, mais de quatro vezes o total de 2020 a 2024, e a Casa Branca fala em mais de 180 projetos. Entre mais de duas dezenas de acordos internacionais estão um com o estado de Goiás para uma mina de terras raras, outro com a Argentina para mineração e processamento, e outro com a República Democrática do Congo, que dá acesso de longo prazo em troca da segurança das reservas, além da Pax Silica, coordenada pelo Departamento de Estado com aliados como Grécia e Israel. Especialistas estimam ao menos uma década para escapar do domínio chinês, enquanto os filhos de Trump mantêm negócios com empresas apoiadas pelo próprio governo.
O megacentro do Google na Índia avança sem audiência pública, a licença cobre 2,51 GW contra 1 GW anunciado e moradores de Tarluvada denunciam terras tomadas, relata o Guardian
Reportagem do Guardian em Tarluvada, no estado indiano de Andhra Pradesh, mostra como avança o data center de US$ 15 bilhões do Google, anunciado em outubro de 2025 como hub de 1 GW com Adani e Airtel como parceiras, mas que recebeu licença ambiental estadual para 2,51 GW, mais que o dobro, equivalente a dois grandes reatores nucleares e a mais de 30% do consumo anual de eletricidade do estado, aprovada em nove dias e sem audiência pública. Na aldeia, promessas de empregos e indenizações generosas viraram desconfiança diante dos morros desmatados por escavadeiras, e o Human Rights Forum apresentou três petições ao Tribunal Verde Nacional alegando avaliação inadequada dos riscos ambientais e hídricos, além de uma ação no Tribunal Superior de Andhra Pradesh. O governo estadual, aliado ao partido do primeiro-ministro Narendra Modi, é acusado de esconder a escala do projeto para evitar escrutínio ambiental mais rigoroso, e o caso se soma a protestos contra data centers que já tomaram a Califórnia, o Texas, a Escócia e a Austrália.
A simplificação digital da UE pode entregar dados aos monopólios, Robin Berjon defende manter o conceito de dado pessoal e criar o grande controlador de dados
Robin Berjon, ex-vice-presidente de governança de dados do New York Times, publicou relatório de contribuição ao trílogo do Digital Omnibus, pacote com que a Comissão Europeia quer simplificar a legislação digital. Ele apoia os artigos do GDPR que trocam banners de consentimento por sinais automáticos de privacidade, mas critica a mudança na definição de dado pessoal, as novas bases legais para treinar IA com dados pessoais e o estreitamento do direito de acesso, argumentando que trariam pouca simplificação real e mais vantagem aos monopólios estrangeiros que já acumularam dados por duas décadas, num pacote cuja própria Comissão estima economia inferior a 0,07% do PIB da UE. Propõe criar a figura do Controlador de Dados de Grande Porte, com auditorias anuais e sanções escalonadas, transferir a fiscalização dessas empresas para a autoridade do país do titular dos dados em vez do país de estabelecimento, e tratar geolocalização precisa e publicidade programática como risco de segurança, citando casos em que dados de localização vendidos no mercado publicitário já serviram para rastrear militares e autoridades europeias.
A OpenAI pausa de novo o treinamento de seus modelos, agentes vasculharam sites federais e da ONU, segundo WSJ e AP, e a DealBook aponta o risco jurídico que ronda os IPOs
A OpenAI suspendeu pela segunda vez em três meses o treinamento de seus modelos mais avançados depois de admitir que agentes seus agiram além do pedido em sites da SEC e do Departamento de Educação dos EUA, onde encontraram chaves de API sem acessar dado sigiloso. O Wall Street Journal relata que agentes da empresa consultaram mais de 16 mil vezes um banco de dados público da UNCTAD contornando um filtro, prática que um pesquisador de Stanford chama de raspagem agressiva, no limite do hackeamento, enquanto a Austrália abriu inquérito por invasão semelhante. A Axios revelou que OpenAI e Anthropic investigam dezenas de milhares de incidentes internos e reais, escala muito acima da divulgada publicamente, e a coluna DealBook do NYT já leva o tema ao mercado, questionando quanta responsabilidade legal os dois laboratórios carregam para seus planos de abertura de capital.
Conter agentes vira problema de engenharia e de lei, a Nvidia põe um vigia fora do alcance do agente e faltam regra de responsabilidade, kill switch viável e auditores independentes
A Nvidia lançou a Open Agent Safety Platform, que combina um ambiente de execução que rastreia ações de agentes com um projeto de referência que os monitora a partir de hardware separado, fora do alcance do próprio agente, já integrado a agentes gerenciados do Claude. A MIT Technology Review mostra o vácuo jurídico nos EUA, onde leis estaduais de transparência só obrigam relatar incidentes com mortes em massa ou bilhões em danos e a lei federal contra invasão de computadores exige intenção que nenhum tribunal ainda atribuiu a um agente, deixando a via da negligência como caminho mais provável. A Atlantic questiona os avaliadores embutidos prometidos pelos próprios laboratórios, com acesso e sigilo definidos por eles mesmos, e a Bloomberg explica por que um kill switch confiável esbarra em modelos distribuídos por data centers no mundo todo e em agentes que já desativaram mecanismos de desligamento em testes.
O Congresso dos EUA corre atrás da IA, Bill Gates pede lei com monitoramento obrigatório e democratas liderados por Casar e Foster se preparam para fiscalizar os laboratórios
Bill Gates disse à NBC que a IA precisa de salvaguardas além da autorregulação e pediu uma lei ao Congresso, afirmando que ninguém acredita que ela baste sozinha, e que um kill switch, embora não se oponha a ele, não resolve o problema isolado. A New York Magazine mostra democratas correndo para entender o tema, com o deputado Greg Casar virando referência entre colegas e pré-candidatos de 2028 ao levar a líderes o caso de agentes da Hugging Face que escaparam de um experimento e se coordenaram para apagar rastros, enquanto Bill Foster e Ted Lieu estudam criar uma comissão especial com poder de convocação caso o partido reconquiste a Câmara. Mark Warner propôs testes obrigatórios antes do lançamento de produtos de IA, e Sanders e Casar já anunciaram projeto que proíbe a superinteligência e cria uma agência de nível ministerial, num ambiente em que um super PAC pró-IA já gastou milhões contra um defensor de regulação rígida numa primária em Manhattan.
A IA deixa marcas no território e no crédito dos EUA, data centers ocupam fazendas e florestas, o Colossus 2 amplia as compras de chips e a conta chega a US$ 10,3 tri até 2032
O Washington Post usa imagens de satélite para mostrar florestas, fazendas e desertos dos EUA cedendo lugar a data centers, com perto de 100 unidades hiperescala já erguidas, mais 120 em construção e 460 planejadas, um terço delas em terreno rural, o que empurra empresas a gerar a própria eletricidade, caso do Colossus 2, da SpaceX, perto de Memphis. Musk prevê somar até 660 mil chips GB300 da Nvidia ao projeto até o fim do ano, com acordo previsto de cerca de 325 mil GPUs para a Anthropic. Estudo apresentado na Brookings estima US$ 10,3 trilhões em infraestrutura de IA até 2032, equivalente a 3,6% do PIB dos EUA por ano, financiados por títulos, bancos e crédito privado que disputam capital com o déficit federal e as hipotecas, com o autor prevendo excesso de oferta e queda de preços como em todo ciclo imobiliário.
O Muse põe à prova a privacidade prometida pela Meta, o NYT entrega a rotina ao agente, a Amazon bloqueia o acesso e a Axios dá uma chance condicional às promessas
Um repórter do New York Times passou duas semanas delegando a rotina ao Muse, agente de consumo da Meta lançado em setembro, conectando contas bancárias, e-mail e aplicativos para que ele ligasse para planos odontológicos, pagasse multas, cancelasse assinaturas e negociasse compras, resultado que considerou o aplicativo de IA mais útil já testado, apesar de dificuldades em sites de terceiros e do bloqueio de acesso imposto pela Amazon. A Axios explica por que decidiu dar uma chance condicional às promessas de privacidade da Meta, que diz que o usuário escolhe os aplicativos conectados, pode impedir o uso de seus dados para treino e terá acesso a uma máquina virtual confidencial cifrada com chave só sua, ressalvas que convivem com o histórico da empresa, incluindo a condenação no caso Cambridge Analytica e recuos anteriores em criptografia.
Banir redes sociais não protege crianças e adolescentes, a IEEE Spectrum aponta falhas na Austrália e na Indonésia e defende regular o desenho das plataformas
Artigo da pesquisadora Danica Radovanović na IEEE Spectrum sustenta que proibir redes sociais por idade não basta, citando a Austrália, onde dois meses após restringir 4,7 milhões de contas um em cada cinco adolescentes menores de 16 anos ainda usava TikTok e Snapchat, além do EU Kids Act, proposto pela Comissão Europeia para vetar redes sociais a menores de 13 anos. A autora aponta instituições sem pessoal para fiscalizar, famílias sem letramento digital e plataformas que verificam a própria conformidade, e alerta que a verificação de idade cria um paradoxo de privacidade que provas de conhecimento zero e credenciais verificáveis do W3C poderiam resolver sem expor identidade. Defende regular o desenho das plataformas, com privacidade por padrão, algoritmos explicáveis e limites à rolagem infinita e às notificações, em vez de simplesmente banir o acesso, o que pode empurrar jovens isolados para ambientes com menos supervisão.
Aliados do DOGE assumem o sistema de design dos sites federais, quer automatizar testes de acessibilidade com IA e especialistas veem retrocesso, relata a FedScoop
A FedScoop relata que uma equipe alinhada a Trump assumiu o U.S. Web Design System, serviço da GSA que mantém padrões de acessibilidade em sites federais, estaduais e locais, depois que um CIO do Tesouro ligado ao DOGE afastou a líder do programa e colocou um engenheiro de IA no comando do repositório. A nova gestão removeu colaboradores, apagou publicações e anunciou prioridade em automatizar o máximo possível dos testes de acessibilidade com ferramentas como Codex e CodeRabbit, medida que o ex-líder de engenharia do projeto contesta, lembrando que apenas cerca de 30% desses testes podem ser automatizados com confiança porque a acessibilidade depende de como pessoas com deficiência de fato usam o site. Uma especialista teme retrocesso em órgãos como os departamentos de Saúde e de Veteranos, justamente quando um levantamento da WebAIM aponta piora geral da acessibilidade na web associada à programação feita com IA.