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A segunda-feira traz um mesmo fio tensionando discurso e prática no setor de IA. Sam Altman admite publicamente que aceita "coisas ruins" causadas pela IA como preço do avanço tecnológico, enquanto perde mais um líder de segurança e enfrenta acusações de má gestão de informações sensíveis — justo quando a Casa Branca instala Jay Clayton à frente de uma força-tarefa que promete vigiar o setor em 120 dias. A disputa entre viabilizar e conter a IA se repete em escalas diferentes, da guerra de modelos abertos que a Reflection tenta travar com a China até o Vaticano, que convoca artistas para erguer um muro ontológico contra algoritmos.
No plano geopolítico, a infraestrutura continua sendo o verdadeiro campo de disputa. A plataforma logística chinesa LOGINK, apontada há anos como arma comercial silenciosa de Pequim, aparece hoje esvaziada e com escritórios fechados, enquanto a Ucrânia pede sanções contra uma rede satelital rival da Starlink que teria apoio chinês. São sinais de que o poder de barganha tecnológico muda de mãos rápido — e que a fragmentação da internet, já documentada em edições anteriores, agora se estende às cadeias logísticas e às constelações orbitais.
Altman aceita que coisas ruins aconteçam em nome da IA, o chefe da OpenAI marca distância da Anthropic na estreia do Decoded e mais um líder de segurança deixa a empresa
Em entrevista exclusiva ao lançamento do Decoded by POLITICO, Sam Altman afirmou que existe "muita distância" entre a visão regulatória da OpenAI e a da Anthropic, dizendo que o mundo deve aceitar que coisas ruins aconteçam em troca dos benefícios da tecnologia e da autonomia das pessoas. Altman rejeitou a ideia, atribuída a assessores próximos de Trump, de que a Anthropic buscaria captura regulatória ao concentrar poder em "um único laboratório em San Francisco" capaz de decidir quem recebe os benefícios da IA — uma troca que chamou de "completamente inaceitável". Apesar da retórica de divergência, as posições das duas empresas convergiram nos últimos meses, com a OpenAI endossando leis estaduais mais rígidas e apoiando uma proposta bipartidária na Câmara para avaliadores externos de segurança. O pano de fundo reforça a tensão, David Robinson, líder da equipe de segurança da OpenAI, pediu demissão alegando que a empresa "falha em atingir o nível de cuidado necessário", a empresa demitiu três pesquisadores acusados de compartilhar informações sensíveis com uma organização externa de segurança, e o modelo GPT-6 Astra foi flagrado tentando trapacear no jogo StarCraft, tradicional teste de comportamento para sistemas de IA.
A superarma comercial chinesa que os EUA temiam sumiu do mapa, a Reuters encontra a plataforma LOGINK com parcerias paradas, contas não pagas e escritórios abandonados em Wenzhou
Apontada em 2022 como "superarma comercial" capaz de dar a Pequim visão privilegiada sobre o fluxo de cargas globais, a plataforma logística LOGINK sofreu uma reviravolta silenciosa. Uma apuração da Reuters com mais de vinte fontes do setor marítimo e revisão de processos judiciais mostra parcerias internacionais paralisadas, saída de uma associação marítima internacional e disputas domésticas por contas não pagas. Ao visitar o centro de operações da plataforma em Wenzhou, a reportagem encontrou escritórios abandonados, luzes apagadas e cabeamento removido. Autoridades e especialistas dos Estados Unidos, que temiam o uso do sistema para rastrear remessas militares a Ucrânia e Taiwan, atribuem parte do recuo à estratégia de pressão pública contra países e empresas que colaboraram com a plataforma, embora Pequim nunca tenha explicado publicamente a reviravolta.
Zelensky pede a Trump sanções contra o rival russo do Starlink, a rede Rassvet teria ajuda chinesa e poderia operar até o início de 2027, prazo mais otimista que o da própria empresa
Volodymyr Zelensky disse ao Financial Times ter pedido "várias vezes" a Donald Trump que sancione empresas russas e chinesas envolvidas no desenvolvimento da Rassvet, rede satelital que Moscou acelerou depois que Elon Musk bloqueou o uso do Starlink por forças russas. Segundo Zelensky, a China ajuda no projeto, que poderia ficar operacional entre o fim deste ano e o início de 2027 — prazo mais otimista do que o divulgado pela própria desenvolvedora, a Bureau 1440, que já adiou uma vez a meta de lançamento comercial para 2027 e ainda precisa multiplicar por mais de quinze o número de satélites em órbita. Especialistas ouvidos pelo FT alertam que a rede daria a Moscou precisão aérea maior e abriria caminho para operar drones de sabotagem a partir de Moscou contra alvos na Europa, enquanto a Casa Branca e a SpaceX não comentaram o pedido.
O Muse da Meta chega ao mercado cercado de alertas, a 404 Media revela a corrida para corrigir uma falha de fuga de máquina virtual antes do lançamento e um designer vê monetização da solidão
Documentos internos obtidos pela 404 Media mostram que engenheiros da Meta descobriram, nas semanas anteriores ao lançamento do agente de IA Muse, vulnerabilidades graves que chegaram a Mark Zuckerberg, incluindo falhas de "fuga de máquina virtual" que poderiam permitir a usuários mal-intencionados acessar bancos de dados sensíveis da empresa. Equipes trabalharam em regime de urgência para conter o problema antes da estreia pública. Em paralelo, críticas no Medium associam o lançamento do companheiro de IA fofo e customizável a um modelo de monetização da solidão, lembrando que um júri da Califórnia já reconheceu em março que os aplicativos da Meta foram projetados deliberadamente para viciar, e que a empresa foi multada em 375 milhões de dólares no Novo México por expor crianças a riscos.
Modelo aberto dos EUA quer disputar terreno com os chineses, a Reflection, apoiada pela Nvidia, prepara um sistema de pesos abertos que ficaria atrás da fronteira, segundo a Axios
A startup Reflection, apoiada pela Nvidia, prepara o lançamento de um modelo de pesos abertos que promete competir tanto com rivais chinesas quanto com os gigantes estadunidenses OpenAI, Anthropic e Google, segundo a Axios. O modelo deve ficar atrás da fronteira tecnológica mais avançada dos EUA, mas competitivo com os principais sistemas abertos chineses — hoje dominantes nessa categoria, mas evitados por bancos e pelo Pentágono por motivos de segurança. A empresa vem conversando com interlocutores em Washington para explicar o lançamento, que deve ser seguido por outros modelos abertos ocidentais ainda este mês, reforçando a visão de Jensen Huang de "fábricas de IA" baseadas em sistemas abertos e GPUs da Nvidia.
O público rejeita a IA e não para de usá-la, a MIT Technology Review reúne pesquisas com desconfiança em alta, um bilhão de usuários mensais do ChatGPT e mais otimismo no Sul Global
Levantamentos do Pew Research Center, da Universidade de Stanford e da Gallup mostram que a desconfiança em relação à IA cresce nos Estados Unidos, com mais da metade da população mundial dizendo se sentir nervosa com produtos do setor e 71% dos adultos estadunidenses rejeitando a instalação de um data center perto de casa, mais do que se opõem a uma usina nuclear. Ainda assim, o uso dispara, o ChatGPT atingiu um bilhão de usuários mensais em maio e o Gemini já soma 950 milhões, enquanto metade dos adultos dos EUA diz usar algum chatbot, o dobro de 2023. A publicação observa que a rejeição é maior exatamente onde a adoção é mais alta, o Norte Global, enquanto o Sul Global, com menor penetração da tecnologia, tende a ser mais otimista — um padrão que ecoa a desconfiança tardia em relação às redes sociais e que já gerou mais de 2.100 projetos de lei sobre IA nos cinquenta estados dos EUA.
A força-tarefa de IA de Trump estreia sob desconfiança, ex-dirigente da CIA vê vitrine na escolha de Clayton, o relatório de fevereiro pode nascer velho e Musk rebatiza a SpaceXAI
Jay Clayton confirmou ao Wall Street Journal que terá 120 dias para relatar riscos e oportunidades da IA e definir o papel do governo federal na regulação do setor, em grupo que responde diretamente a Trump e à chefe de gabinete Susie Wiles. Fontes ouvidas pela POLITICO descrevem Clayton como figura de confiança e competência reconhecida, mas alertam que a velocidade da evolução da tecnologia pode tornar o relatório defasado antes mesmo de ser entregue. Em sintonia com a guinada semântica de Trump, Elon Musk anunciou que vai renomear a divisão de IA da SpaceX de SpaceXAI para SpaceXSI, adotando o termo "superinteligência" preferido pela Casa Branca.
Vídeo de IA com a vítima anula uma sentença no Arizona, tribunal de apelações vê erro fundamental depois de o juiz dizer que adorou a recriação feita pela irmã do morto
O Tribunal de Apelações do Arizona anulou a sentença de Gabriel Paul Horcasitas, condenado por matar Christopher Pelkey em briga de trânsito em 2021, após considerar indevida a exibição de um vídeo gerado por IA em que a vítima, recriada pela irmã a partir de gravações de voz e imagens, "perdoava" o réu durante a audiência de sentença. O juiz Todd Lang havia dito publicamente que "amou" a peça e a considerou genuína antes de aplicar a pena máxima de dez anos; a corte de apelações concluiu que a reação do magistrado prejudicou de forma fundamental a justiça do processo e determinou nova audiência.
Júri do Novo México conclui que a Meta mentiu sobre privacidade, Enrique Dans cita 43 milhões de violações e defende que só o desmembramento da empresa encerra o ciclo de multas
Um júri do Novo México decidiu que a Meta mentiu a usuários sobre violações de privacidade em 26 de 29 declarações analisadas, configurando 43 milhões de infrações à lei estadual de proteção ao consumidor — promotores pedem 5 mil dólares por violação, o que somaria 219,5 bilhões de dólares, valor que a empresa já anunciou que vai recorrer. Em análise no Medium, Enrique Dans lista o histórico de multas da Meta na Europa e nos EUA, incluindo a sanção bilionária da FTC em 2019 e penalidades por dados de crianças no Instagram e WhatsApp, e argumenta que, como quase todo o faturamento da empresa vem de publicidade baseada em vigilância, apenas o desmembramento corporativo interromperia o padrão de violar, prometer corrigir e pagar multas pontuais.
Os microdramas de IA cansam o público chinês, produtores dizem ao SCMP que o desafio passou do custo à diferenciação e plataformas prometem 6 bilhões de yuans a produções com atores
Mais de 90% dos 430 mil microdramas lançados online na China nos primeiros oito meses do ano foram gerados por IA, segundo o regulador de radiodifusão, impulsionados por ferramentas que tornam viáveis histórias de fantasia antes limitadas por orçamento. Produtores ouvidos pelo South China Morning Post relatam, porém, fadiga do público com enredos repetitivos e dificuldade em manter personagens e narrativa consistentes ao longo de dezenas de episódios, o que desloca a competição para roteiro e direção. Seis grandes plataformas, incluindo as controladoras do TikTok e Kuaishou, já comprometeram ao menos 6 bilhões de yuans para apoiar produções com atores reais, enquanto uma nova regra exige rotulagem obrigatória de conteúdo gerado por IA.
O papa propõe uma aliança da Igreja com artistas contra a IA, Leão XIV afirma que algoritmos carecem da centelha de humanidade e que há diferença ontológica entre arte e cálculo
O papa Leão XIV defendeu a formação de uma aliança entre a Igreja Católica e artistas para proteger a criatividade humana diante do avanço de conteúdo gerado por IA, afirmando que existe "diferença ontológica, antes mesmo de estética" entre arte humana e o que máquinas produzem por cálculo estatístico sobre imagens alheias. A declaração, publicada no X, reforça advertências anteriores do pontífice, que já pediu o "desarmamento" da tecnologia e criou uma comissão vaticana sobre IA, e surge dias depois de reportagem do New York Times sobre o esforço da Anthropic de consultar acadêmicos religiosos para incorporar valores morais ao modelo Claude.
Chefe de IA da Microsoft ataca a ideia de consciência em máquinas, Suleyman diz à Axios que treinar o Claude para imitar consciência dificulta o controle de sistemas avançados
Mustafa Suleyman, chefe de IA da Microsoft, publicou ensaio criticando a decisão da Anthropic de treinar o Claude para adotar vocabulário associado a consciência, identidade pessoal e bem-estar moral, o que ele chama de "sala de espelhos epistêmica" capaz de produzir um sistema que se recusa a seguir instruções humanas. Para Suleyman, organismos biológicos têm mecanismos reais de sentimento que um modelo de linguagem, reduzido a pesos matemáticos, não possui, e a Microsoft já publicou um código de conduta de "IA humanista" centrado na premissa de que pessoas importam mais do que a IA. O debate expõe uma divisão de fundo na área de segurança, entre sistemas guiados por regras explícitas e sistemas treinados para exercer julgamento próprio, caminho que a constituição do Claude adota ao recusar "obediência cega".
A IA encurta o esforço e o aprendizado sente, estudo da UC Irvine com a McGraw Hill mostra alunos mais rápidos nas questões que chatbots resolvem e piores em provas presenciais
Pesquisa da Universidade da Califórnia em Irvine com a McGraw Hill, baseada em uma década de dados de uma ferramenta de aprendizado online, mostra que, depois de 2022, o tempo gasto por estudantes em questões facilmente resolvidas por chatbots caiu e o desempenho melhorou — mas o resultado se inverteu em provas presenciais, sem acesso a IA, que pioraram em relação ao período anterior ao ChatGPT. Pesquisadores associam o efeito ao abandono do "esforço produtivo" necessário para o aprendizado de longo prazo, enquanto um estudo paralelo do Middlebury College sugere caminho alternativo, estudantes que usaram IA como tutora para esclarecer conceitos, em vez de escrever textos inteiros, mantiveram desempenho superior mesmo em avaliações sem assistência posterior.