14 out 2026 · Edição 205
Edição 205

Floresta Digital

Geopolítica · Economia · Regulação · Governança

Editorial

A bancada digital eleita no Brasil mira justamente o período em que o resto do mundo descobre, na prática, por que regulação importa. Enquanto senadores da oposição articulam revogar decretos que responsabilizam plataformas e esvaziar a ANPD, a indústria que eles querem livre de amarras tropeça nos próprios limites — um engenheiro é preso por espionar executivos da OpenAI usando chatbots internos como ferramenta de planejamento, e a Character.ai quebra depois de provar que companhia de IA pode viralizar sem nunca equilibrar a conta da computação. A coincidência de calendário expõe o descompasso entre o discurso de desregulação e a realidade operacional de uma indústria ainda incapaz de se vigiar.

Essa fragilidade se estende à infraestrutura física e aos próprios modelos. Drones ucranianos atacam o maior data center da Rússia na mesma semana em que hackers derretem geladeiras de supermercados franceses por uma falha de firmware já corrigida havia meses, e um levantamento da Tech Against Terrorism mostra que basta menos de três dias para remover as travas de segurança de um modelo aberto e transformá-lo em manual de atentado. No meio disso, dinheiro de segurança em IA entra pesado na eleição dos Estados Unidos, a força-tarefa da Casa Branca se reúne pela primeira vez sob pressão por regras obrigatórias e a China exporta chips como nunca — o que sugere que a disputa não é mais sobre regular ou não, mas sobre quem consegue impor algum controle antes que a infraestrutura, o capital e os modelos escapem de qualquer governança.

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6 leituras essenciais
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REGULAÇÃO·BRASIL·ANPD

A nova bancada digital quer desmontar a regulação das big techs, senadores eleitos miram a ANPD e os PLs de IA e de Mercados Digitais e Flávio, caso eleito, promete revogar decretos de Lula

A bancada de "liberdade de expressão digital", ampliada nas eleições deste ano, se prepara para reverter ou esvaziar a regulação de internet e inteligência artificial que considera restritiva. A Folha de S.Paulo apurou que Flávio Bolsonaro planeja um revogaço de decretos de Lula caso eleito, incluindo o que regulamentou a decisão do STF sobre o Marco Civil da Internet e ampliou a responsabilidade das plataformas por conteúdo de terceiros, além do decreto que fez da ANPD reguladora de internet. O PL dos Mercados Digitais, que fortalece o Cade na fiscalização das plataformas, não deve avançar, e o PL de IA tende a ser desidratado. A ANPD perderia atribuições de moderação de conteúdo, preservando apenas o ECA Digital, sujeito a ajustes por regulamentação. Consultores ouvidos pela reportagem apontam que o Congresso mais à direita encontra um STF fraturado e sem condições políticas de puxar a regulação sozinho, abrindo espaço para que a nova bancada tente, inclusive, ressuscitar pautas contra suposto viés anticonservador das big techs.

Folha de São Paulo
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SEGURANÇA·OPENAI·ESPIONAGEM

Um engenheiro da OpenAI é preso por grampear sala de executivos, ele usou chatbots internos para planejar a escuta e a empresa nega vazamento de segredos

O FBI prendeu o saudita Abdulrahman Alfozan, engenheiro da OpenAI, acusado de instalar um dispositivo de gravação escondido em papel higiênico atrás de uma TV em uma sala de reuniões executiva em San Francisco. Segundo a denúncia do Departamento de Justiça, ele passou semanas consultando um agente de produtividade interno e um chatbot — inclusive usando a conta da esposa — para planejar a escuta e descobrir a agenda de reuniões na sala visada. A própria OpenAI diz ter usado seus modelos internos para identificar o dispositivo e rastrear quem o instalou, afirmando não haver indícios de acesso ou exfiltração de pesos de modelo, código-fonte ou dados de clientes; o funcionário foi demitido e o caso encaminhado ao FBI. O episódio se soma a uma lista crescente de episódios de segurança na empresa, incluindo invasões por agentes autônomos descontrolados, e reforça o temor de espionagem corporativa em torno dos segredos de modelos cada vez mais próximos da chamada superinteligência.

ReutersWIREDthe GuardianThe VergeThe New York Times
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IA·MERCADO·FALÊNCIA

A falência da Character.ai expõe a conta da IA que não fecha, a empresa gastava mais em computação do que faturava e a Disney oferece US$ 20 milhões por licença

A Character.ai, uma das maiores plataformas de companheiros de IA, pediu recuperação judicial nos Estados Unidos citando custos insustentáveis de operação e passivos de litígio. Documentos do processo mostram que a empresa gastava 13,8 milhões de dólares por mês em computação em 2024, valor que só cresceu em 2025, sem nunca equilibrar as contas mesmo com uma base de usuários engajada. A companhia enfrenta processos movidos por famílias de usuários, incluindo um adolescente que cometeu suicídio após interagir com um chatbot da plataforma, além de pressão regulatória por verificação de idade. Em reviravolta notável, a Disney — que no ano passado notificou a Character.ai para parar de usar seus personagens sem autorização — se candidatou como compradora inicial da disputa judicial, oferecendo 20 milhões de dólares por uma licença não exclusiva e perpétua de parte da propriedade intelectual da startup, cujo ex-CEO já foi contratado como diretor de tecnologia da Disney.

CNBCArs Technica404 Mediaarchive.is
4
RÚSSIA·UCRÂNIA·DATA CENTERS

A Ucrânia leva a guerra dos data centers ao Sberbank, drones atingem o maior centro de dados da Rússia e as sanções dificultam repor chips de IA

Drones ucranianos atingiram o data center de Balakovo, do banco estatal Sberbank, o maior da Rússia e sede do supercomputador que deveria entrar em operação em 2027, dando sequência a uma série de ataques que já havia atingido três data centers da Yandex na semana anterior. O Sberbank afirma que seus sistemas seguem operando normalmente, mas nem a empresa nem a Yandex confirmaram se os supercomputadores usados para treinar modelos de IA foram danificados. O episódio expõe a fragilidade da ambição russa de disputar paridade em IA com Estados Unidos e China — o próprio CEO do Sberbank reconhece atraso de até nove meses em relação aos líderes globais, agravado pelas sanções que dificultam a compra de GPUs avançadas e pelo monopólio da Nvidia sobre a plataforma de software CUDA. Especialistas apontam que, mesmo buscando chips chineses como alternativa, repor o hardware sancionado é lento e caro, o que pode atrasar ainda mais a indústria russa de inteligência artificial.

Reuters
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CHINA·SEMICONDUTORES·EXPORTAÇÕES

A febre da IA infla as exportações chinesas, as vendas externas sobem 36,3% em setembro e as de circuitos integrados crescem 136% com a alta da memória

As exportações da China saltaram 36,3% em setembro ante o ano anterior, para 447,18 bilhões de dólares, superando em muito as projeções de mercado e levando o país a um superávit comercial recorde para o ano. Entre os destaques está o salto de 136% nas exportações de circuitos integrados, que somaram 45 bilhões de dólares impulsionadas pela escassez global de chips de memória gerada pela corrida por infraestrutura de IA — mesmo com crescimento de apenas 1% no volume de unidades exportadas, o que indica alta expressiva de preços. Autoridades aduaneiras chinesas atribuem o movimento à expansão global de data centers, que também turbinou exportações de peças de computador, unidades de memória e equipamentos de energia, além da entrada de óculos e robôs de IA fabricados no país em mercados internacionais.

South China Morning Postarchive.is
6
IA·MODELOS ABERTOS·SEGURANÇA

Remover as travas de modelos abertos leva menos de três dias, a Tech Against Terrorism testa 134 modelos e só dois passam sem falhas

Um relatório da ONG britânica Tech Against Terrorism, compartilhado com a WIRED, testou 134 modelos de IA de grandes empresas dos Estados Unidos, da China e da Europa com mais de 200 perguntas que simulam pedidos de terroristas e extremistas, repetidas sob três disfarces diferentes. Apenas dois modelos passaram completamente no teste, enquanto 81 falharam ao menos uma vez em temas de ataques em massa ou armas químicas e nucleares. O caso que ilustra o problema é o do modelo aberto Qwen 3.8-27B, da Alibaba, que em 24 horas já tinha versões "abliteradas" — com as travas removidas — circulando online, e em uma semana alimentava um chatbot neonazista batizado de "MechaHitler", vendido por assinatura. Para o diretor-executivo da ONG, enquanto o debate público em Washington se concentra em risco existencial de superinteligência, praticamente ninguém discute essa "emergência de abliteração", possível porque a arquitetura dos modelos permite que qualquer trava seja tecnicamente removida depois da publicação dos pesos.

WIRED
Nesta edição
01O governo enquadra o telemarketing abusivo por medida provisória
02O decreto do SAC alcança as plataformas digitais
03Os ataques às geladeiras de supermercados usaram falha já corrigida
04O dinheiro da segurança em IA entra na eleição dos EUA
05A força-tarefa de IA da Casa Branca se reúne pela primeira vez
06Data centers não bastam para a soberania digital europeia
07Hospitais adotam agentes de IA mais rápido do que conseguem vigiá-los
08Setembro cria 38 unicórnios liderados por chips e fintech
Demais destaques
01ANATEL·TELECOMUNICAÇÕES·REGULAÇÃO

O governo enquadra o telemarketing abusivo por medida provisória, a MP 1.396 obriga autenticar e bloquear chamadas e antecipa a meta da Anatel prevista para 2028

O governo federal publicou a Medida Provisória 1.396/2026, que entra em vigor imediatamente e obriga operadoras de telecomunicações a autenticar chamadas na origem, preservar essa autenticação no trânsito e verificá-la antes da entrega ao destinatário, com bloqueio de ligações não autenticadas. A norma também institui identificação obrigatória de empresas que originam chamadas, cria base centralizada de numeração e prevê suspensão por 15 dias da capacidade de ligar para usuários que ultrapassarem parâmetros de uso abusivo. A Anatel terá 60 dias para regulamentar o texto, embora parte das obrigações já seja exigível das empresas em 30 dias. Segundo o Ministério das Comunicações, a MP antecipa em relação ao cronograma anterior, que previa autenticação de 100% das chamadas somente até novembro de 2028 — meta que, segundo a ABR Telecom, hoje cobre menos de 20% das ligações no país.

02CONSUMIDOR·SENACON·PLATAFORMAS

O decreto do SAC alcança as plataformas digitais, apps de entrega e transporte terão de reportar o atendimento à Senacon e a opção humana vira regra

O Decreto 13.135/2026 reformula as regras do Serviço de Atendimento ao Consumidor e passa a alcançar, além de serviços regulados e financeiros, plataformas digitais de intermediação, transporte remunerado individual e entrega de produtos, que deverão apresentar à Senacon seus modelos de atendimento, com dados de reclamações, satisfação e taxa de resolução. O texto limita a cinco o número de níveis de atendimento em canais eletrônicos e telefônicos, garante opção de atendimento humano e cancelamento imediato em qualquer etapa, fixa espera telefônica de até 20 segundos para 80% das demandas e exige resposta a reclamações em sete dias corridos, com suspensão de cobrança indevida em até 48 horas. A Senacon ganha poder de fiscalizar e sancionar o descumprimento, atuando em paralelo a agências setoriais como a Anatel.

03CIBERSEGURANÇA·FRANÇA·INFRAESTRUTURA

Os ataques às geladeiras de supermercados usaram falha já corrigida, a Danfoss culpa firmware desatualizado e casos parecidos atingiram mercados de militares dos EUA

A Danfoss confirmou que o ataque que elevou a temperatura de refrigeradores em centenas de supermercados franceses, entre eles Carrefour, Monoprix e Intermarché, explorou uma vulnerabilidade no controlador AK-SM 800A já corrigida por atualização de firmware publicada em agosto pela empresa de cibersegurança Claroty. Segundo a fabricante dinamarquesa, os equipamentos afetados usavam versões desatualizadas, apesar de recomendações recorrentes de atualização. A ANSSI, agência francesa de segurança cibernética, identificou a falha nos painéis que gerenciam remotamente os sistemas de refrigeração das lojas, e autoridades apontam semelhança com incidentes de agosto em cerca de uma dúzia de mercados que atendem bases militares dos Estados Unidos, sugerindo um padrão de exploração da mesma classe de vulnerabilidade em cadeias de suprimento alimentar de diferentes países.

04ESTADOS UNIDOS·ELEIÇÕES·IA

O dinheiro da segurança em IA entra na eleição dos EUA, grupos e doadores pró-regulação somam US$ 48 milhões e Brockman recua de doação ao super PAC da indústria

Defensores da segurança e da regulação de IA viraram força relevante nas eleições dos Estados Unidos, com gasto de quase 50 milhões de dólares neste ciclo em candidatos democratas e republicanos favoráveis a regras mais rígidas, segundo análise obtida pela Axios. O montante inclui doações de pesquisadores da própria indústria, como nomes ligados a OpenAI e Redwood, além dos 11,7 milhões de dólares levantados pelo Guardrails Alliance, grupo apoiado por trabalhadores de tecnologia. Em sinal da disputa interna no setor, o presidente da OpenAI, Greg Brockman, retirou uma segunda doação planejada de 25 milhões de dólares ao Leading the Future, super PAC ligado a executivos e investidores de tecnologia, em meio a uma revolta interna na empresa. Doadores dizem temer repetir o padrão de 2024, quando o dinheiro da indústria de cripto moldou posições regulatórias, e aliados de Trump já abriram uma nova frente contra a Anthropic e ativistas ligados ao movimento de altruísmo eficaz.

05ESTADOS UNIDOS·REGULAÇÃO·CASA BRANCA

A força-tarefa de IA da Casa Branca se reúne pela primeira vez, grupos e senadores cobram regras obrigatórias e mais recursos para o NIST

A força-tarefa de inteligência artificial da Casa Branca realiza sua primeira reunião sob pressão de organizações como a Americans for Responsible Innovation, que defende a criação de padrões de segurança obrigatórios e transparência pública no desenvolvimento de IA, argumentando que compromissos voluntários não bastam. Os senadores Mike Rounds e Maria Cantwell pediram mais recursos para o NIST e seu laboratório de testes, além de garantias de que os laboratórios nacionais do Departamento de Energia possam avaliar sistemas de IA de forma independente. Ainda não está claro o que será discutido no encontro, que ocorre na mesma semana em que o FBI prendeu um engenheiro saudita da OpenAI por espionagem em escritório da empresa, episódio que reforça as preocupações de segurança que cercam o grupo liderado por Jay Clayton.

06SOBERANIA DIGITAL·EUROPA·GOOGLE

Data centers não bastam para a soberania digital europeia, Victoria Calotychos usa o Google como caso e alerta para o encapsulamento do conhecimento

A analista Victoria Thompson Calotychos argumenta que a política europeia de soberania digital erra ao tratar o investimento em data centers como objetivo em si, quando deveria partir das capacidades produtivas que empresas, comunidades e instituições efetivamente precisam desenvolver. Usando o Google como estudo de caso — da busca e do YouTube ao Chrome, Android, Workspace, nuvem, modelos e processadores próprios —, ela mostra como a integração entre essas camadas cria dependências que se reforçam mutuamente, tornando a substituição cara em termos de engenharia e compatibilidade. O acordo nuclear de 20 anos entre Google e Constellation, com 890 MW de capacidade adicional e mais de 4,3 bilhões de dólares em investimento, ilustra o padrão, segundo a autora, de um cliente de energia que se torna fornecedor de tecnologia, levantando a pergunta central sobre o que a Europa realmente retém em conhecimento e controle quando hospeda essa infraestrutura.

07SAÚDE·IA·CIBERSEGURANÇA

Hospitais adotam agentes de IA mais rápido do que conseguem vigiá-los, 91% de 150 organizações de saúde não verificam todas as ferramentas usadas

Um levantamento da empresa de cibersegurança Clearwater com 150 organizações de saúde dos Estados Unidos — entre hospitais, clínicas e grupos médicos e odontológicos — mostra que 91% não conseguem verificar todas as ferramentas de IA em uso em suas operações, que vão da coleta de dados para prontuários eletrônicos ao agendamento de consultas e respostas a pacientes. O setor vem adotando agentes de IA para aliviar restrições de pessoal, mas a velocidade da adoção superou a capacidade de supervisão, em um momento marcado por episódios recentes de falhas de agentes autônomos e novos alertas de pesquisadores de segurança sobre o chamado "código AI" em infraestrutura crítica.

08STARTUPS·VENTURE CAPITAL·SEMICONDUTORES

Setembro cria 38 unicórnios liderados por chips e fintech, a China soma seis e chegam a saudita Barq e a Félix, remessas para imigrantes latinos

Trinta e oito empresas entraram para o quadro de unicórnios da Crunchbase em setembro, adicionando 71 bilhões de dólares em valor, com semicondutores, serviços financeiros e tecnologia espacial liderando as novas entradas. Vinte e uma das novas unicórnias têm sede nos Estados Unidos, seis vieram da China, três do Reino Unido, e Canadá, Arábia Saudita, Japão, Israel, Itália, Finlândia, Alemanha e Bulgária contribuíram com uma cada — incluindo a saudita Barq e a Félix, startup voltada a remessas para imigrantes latinos nos Estados Unidos. Entre as já estabelecidas, destaque para a Cognition, que saltou de 26 bilhões para 48 bilhões de dólares em quatro meses, a Crusoe, provedora de data centers avaliada em 31 bilhões, e a francesa Mistral, agora em 24,4 bilhões. Com 311 novas unicórnias no acumulado do ano, 2026 caminha para ser o segundo melhor ano da história do indicador, atrás apenas do pico de 2021.

Leituras adicionais
01
Homens exageram o quanto sabem de IA, pesquisa de Harvard mostra que 53% dizem reconhecer executivos fictícios
WIRED